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Sao Goncalo Do Rio Abaixo, Minas Gerais
Psicóloga psicanalista, graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais, e pós-graduanda em Políticas Públicas de Gênero e Raça-etnia, pela Universidade Federal de Ouro Preto. Atualmente, sou psicóloga clínica, em consultório particular, e psicóloga educacional da Secretaria Municipal de Educação, ambos em São Gonçalo do Rio Abaixo/MG. Contato: (31) 9232 1722 | gizelepsicologia@gmail.com. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7412358239952349
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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

QUANDO A CRIANÇA "É" O SINTOMA


As perturbações da criança produzidas por uma estrutura familiar sintomática
Frequentemente me deparo com pais e mães preocupados(a) com determinados “comportamentos” dos filhos que eles julgam sintomáticos, tais como: “Meu filho está muito rebelde e está dando muito trabalho na escola”, ou “Ele voltou a fazer xixi na calça, à noite”, ou “Ele faz pirraça para conseguir o que quer”, ou mesmo “Ele só fica dizendo que quer morrer”...
De fato, onde há fumaça, há fogo! E a criança tende a manifestar sua angústia de forma mais concreta mesmo, uma vez que ainda não detém a capacidade de identificar ou metaforizar determinados sentimentos que a incomodam. Tanto é que é muito comum, por exemplo, crianças dizerem sentir dores numa determinada parte do corpo para aludirem a uma angústia que ainda não conseguem localizar ou nomear.
Realizar um atendimento psicológico com essa criança, a fim de verificar se procede essa queixa, pode se mostrar uma atitude bastante razoável e eficaz. Em alguns casos, no entanto, logo no início do tratamento percebemos que a queixa inicial dos pais nem sempre se configura em demanda, ou seja, é muito comum percebermos na prática clínica com a criança que esta não tem necessariamente um sintoma isolado, mas está respondendo, com seu próprio corpo, a uma situação problemática, sintomática.
Mais claramente, as perturbações das crianças, nesses casos, são muitas vezes respostas a uma constituição familiar desestruturada, da qual ela não consegue se desvencilhar, e descarrega sua angústia na produção do sintoma, que os pais (ou outro responsável) levam ao analista sob a forma de queixa. O sintoma da criança vem funcionar, assim, como o solucionador de seu conflito entre o desejo interno que não pôde ser satisfeito e a realidade externa1.
O sintoma, nesse caso, é uma língua amordaçada, e a criança responde, assim, ao que há de sintomático no discurso da família e co-responde de modo singular, com seu corpo, a esse enunciado familiar2. Tratar, pois, dessa criança é, antes de tudo, tratar dessa família sintomática.
A prática analítica com crianças, nesse sentido, é muito mais exposta do que a que é realizada com adultos, uma vez que ela se desenvolve implicando terceiros, que podem intervir juntamente com o analista3. Talvez resida aí a maior dificuldade em se tratar de crianças: muitas vezes seus familiares não se movimentam na direção do tratamento analítico ou, ao contrário, se movimentam contra, no sentido de manter o status quo, ou seja, deixar as coisas como estão.
Isso acontece por diversos motivos, e um exemplo bastante comum é o caso em que a criança possui pais divorciados e, nessa relação esfacelada, é útil aos genitores valer-se dela como “moeda de troca”. Assim, a criança é utilizada, por exemplo, para se requerer pensão alimentícia e demais benefícios financeiros, para burlar um encontro amoroso do(a) ex, ou mesmo como apelo sentimental, dentre outros.
Nesse sentido, torna-se difícil ao analista uma intervenção, uma vez que é preciso haver uma condição mínima na qual este estará apto a atuar e, mesmo assim, isso só acontecerá a partir do momento em que os pais autorizarem a intervenção3, e quando se dispuserem a ser, também, passíveis de intervenções.
Se não há a autorização e colaboração dos pais/responsáveis, não há atendimento que vingue!
A criança por si só, e até mesmo por sua idade, não consegue sustentar seu atendimento, que acaba por fenecer, em decorrência das burlas (muitas vezes até inconscientes) de seus pais, que faltam ou atrasam às sessões, que intensificam a relação desestruturada em casa, ou simplesmente retiram a criança do tratamento. 
             O sintoma da criança vem sempre cifrado e só será possível ao analista decifrá-lo a partir do momento em que construir com os pais uma relação de confiança que permita com que eles “baixem a guarda”, ou seja, que possam de fato confiar no analista a ponto de optarem por colaborar durante o longo e muitas vezes “doloroso” percurso de terapia da criança4.
As intervenções do analista sobre o ajustamento dos pais à neurose da criança são tão importantes, ou até mais, do que suas intervenções diretas sobre o sintoma em si3. Se houver essa legítima autorização, o analista, a partir do atendimento à criança, auxiliará a família em sua reestruturação, de maneira que a condição sintomática familiar que originou o sintoma da criança possa se reduzir ou até mesmo findar.
Num primeiro momento, a família acredita que o analista detém a capacidade de saber o que o seu filho traz escondido. No entanto, o trabalho do analista é, na verdade, o de construir uma ponte entre a criança e a família, por onde muitas vezes esses impasses serão resolvidos3. Depois, ele devolve a quem é de direito, ou seja, aos pais, esse lugar de saber sobre o filho, de onde poderão organizar sua estrutura familiar no intuito de dissolver o que propiciou a formação desse sintoma que deu origem à queixa.


1  FREUD, S. (1969 [1926]b) “Inibição, sintoma e ansiedade”. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. V. 20. 
2  FERREIRA, T. A. (2000) A escrita da Clínica: Psicanálise com crianças. Belo Horizonte: Autêntica.
3  PORGE, E. (1998) “A transferência para os bastidores”. In Littoral: A criança e o psicanalista. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.
4  VORCARO, A. M. R. (2004) A criança na clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

DEITE-SE... EU QUERO LHE USAR!

OBRA DE JORGE AMADO DENUNCIA VIOLÊNCIA (SEXUAL) DOMÉSTICA

"[Sobre o romance de Gabriela com o turco Nacib, uma linda] história de amor, que (...) começou no mesmo dia claro, de sol primaveril, em que o fazendeiro Jesuíno Mendonça matou, a tiros de revólver, dona Sinhazinha Guedes Mendonça, sua esposa, expoente da sociedade local, morena mais para gorda, dada às festas de igreja". ("Gabriela, cravo e canela", romance de Jorge Amado, 1958)


    É com essa frase que Jorge Amado inicia um dos seus mais belos e famosos romances, escrito por ele em 1958, para retratar a sociedade da pequena cidade de Ilhéus da década de 20. A vida da personagem Gabriela é narrada a partir dos acontecimentos desse vilarejo, dentre eles o mais expoente, o assassinato da Dona Sinhazinha por seu marido, o coronel Jesuíno. Tanto é que, no romance, até a centésima página[1] não se tem especulação maior do que as causas e circunstâncias da morte dessa senhora, que era até então tida como o pilar moral da sociedade ilheense.
     Recentemente, o romance vem sendo reapresentado na TV sob a forma de novela[2], a partir de um remake datado de 1975. Nessa recente filmagem, a Dona Sinhazinha foi brilhantemente representada pela atriz Maitê Proença, que, no dia 08 de agosto (30º capítulo), foi assassinada com dois tiros pelo marido, o coronel Jesuíno, na trama representado por José Wilker. Essa foi a última agressão desse homem a uma mulher que, em todos os episódios anteriores, foi violentada de alguma forma, seja no âmbito físico, psicológico, moral, sexual ou patrimonial.
     Baseada na atuação da Dona Sinhazinha da novela é que optei por tecer alguns comentários acerca da violência contra a mulher no âmbito afetivo/doméstico, uma vez que a novela tende a deter um maior acesso da população brasileira, se comparada ao livro. O objetivo é o de me valer da dramaturgia para mostrar que, infelizmente, vale o ditado de que “a arte imita a vida”. Assim como na ficção de Jorge Amado, na pequena Ilhéus de 1925, ainda hoje, em 2012, a mulher continua sendo violentada de diversas formas, com agressões cada vez mais atrozes, até culminar, muitas vezes, em seu assassinato.
      Assim como a Dona Sinhazinha foi violentada nos diversos âmbitos previstos pela Lei Maria da Penha[3], muitas mulheres brasileiras ainda hoje estão sob o jugo do homem (na maioria das vezes o agressor vem representado pela figura masculina), seja ele marido, namorado, pai ou irmão. Também pode ocorrer com uma companheira, em caso de união homoafetiva, por exemplo.
      O simples fato de ela ser mulher é o que determina o motivo pelo qual foi agredida e, baseado nessa condição de mulher, é que o agressor(a) constrói o seu discurso de que tem o direito de violentá-la. Tem-se aí como base uma relação de patriarcado, muito presente em sociedades sexistas, em que há a desigualdade das relações entre homem e mulher, o que permite que haja um exercício privado e institucionalizando de poder, controle e domínio, usando-se como ferramenta para isso a violência[4].
      Pois bem, são cinco os tipos de violência doméstica, segundo a Lei Maria da Penha: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Para evitar um texto muito longo, aqui abordarei somente a violência sexual, que foi a mais pungente no caso de Dona Sinhazinha.
     Da mesma forma como o coronel Jesuíno usou por diversas vezes a frase “Deite-se, eu quero lhe usar”, ou “A senhora é minha mulher e tem a obrigação de me servir”, ou mesmo “A mim só me interessa o que a senhora tem entre as pernas”, muitas mulheres ainda escutam diariamente essas mesmas frases e são, cotidianamente, violentadas sexualmente, obrigadas a manter relações sexuais com seus parceiros(as), sob a justificativa de que esse é seu "dever de mulher”.
      Esse é um claro exemplo de violência sexual, que acontece na vida real em muitos lares brasileiros, e a mulher muitas vezes nem se dá conta de que está em uma situação de extrema violação de direitos, talvez porque esse discurso fica tão naturalizado na sociedade, que acaba correndo nas veias como sangue[5]. Assim, essa situação de violência não é sequer problematizada, a ponto de a mulher não deter a consciência de que seu corpo é de sua exclusiva propriedade e responsabilidade, cabendo a ela a escolha de manter relação sexual se, quando e com quem quiser.
    A igualdade só pode ser obtida por meio da conquista da autonomia por parte dessas mulheres[6] e dar fim à violência doméstica só será possível quando pudermos falar claramente sobre ela, quando pudermos entender os mecanismos que a engendram, e mais, quando pudermos conferir visibilidade a essa luta pela preservação dos direitos humanos.


[1] Amado, Jorge, 2001. Gabriela cravo e canela. 85 ed. Rio de Janeiro: Record.
[2] Gabriela, novela de Walcyr Carrasco, inspirada na obra Gabriela cravo e canela, de Jorge Amado. TV Globo, Licenciado por Warner Bros.
[3] Lei nº 11.340, de 07 de agosto de 2006.
[4] Grossi, P. K., Casanova, M. F e Starosta, M. , 2004. Violência, gênero e políticas públicas. Porto Alegre: Edipucrs

[5] Prins, B. e  Meijer, I. C., 2002. Como os corpos se tornam matéria: entrevista com Judith Butler. Rev. Estud. Fem. [online]. vol.10, n.1, pp. 155-167.

[6] Saffioti, H., 2004. Gênero e patriarcado: Violência contra mulheres. In A mulher brasileira nos espaços público e privado. São Paulo: Fundação Perseu Abramo.